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Uma prata que vale ouro: o milagre de Verônica Hipólito

publicado: 27/08/2019 04h27, última modificação: 02/12/2019 18h47

Vinte e três medalhas conquistadas em apenas um dia em uma única modalidade. Se o Brasil pudesse contar apenas com o resultado alcançado pelo atletismo nesta segunda-feira (26.08), ainda assim o país estaria em quinto lugar no quadro de medalhas, à frente de países como Canadá, Cuba e Chile. Foram oito ouros, sete pratas e oito bronzes conquistados pelos atletas brasileiros no Complexo Esportivo Videna, em Lima.

O resultado ajudou a manter o Brasil na liderança folgada do quadro de medalhas, com 121 medalhas conquistadas: 41 de ouro, 39 de prata e 41 de ouro. Os Estados Unidos, em segundo lugar, têm 10 ouros a menos e estão a 41 medalhas do Brasil em números totais. Mas os números, ainda que impressionantes, guardam certa frieza quando citados dessa maneira. É na história única de cada medalha conquistada que a construção do Brasil como potência paralímpica se faz mais sólida.

Um dos melhores exemplos é Verônica Hipólito. Após passar por duas cirurgias para retirar tumores na cabeça e lutar durante a recuperação contra uma pneumonia, a paulista de 23 anos voltou a treinar há apenas seis meses e havia perdido as esperanças de competir no Parapan. “Eu lembro que eu pensava que para estar em Lima teria que acontecer um milagre. E aconteceu. Eu tinha tudo para não voltar a correr, não voltar a andar, e olha onde eu estou”, emocionou-se.

O milagre, no caso, foi mais forte do que a encomenda, porque além de conseguir competir em Lima, Verônica conquistou uma prata já na sua primeira prova na capital peruana: os 200m T37. “Em 2015, quando ganhei a prata, fiquei muito brava. E uma pessoa disse para mim: ‘Você vai aprender a valorizar cada passo que você dá e vai entender que não é só medalha de ouro e recorde mundial no final’. E eu fiquei: ‘Ah, besteira’. Hoje entendo. Essa prata para mim é o meu ouro”, falou.

Em 2015, no Parapan de Toronto, Verônica conquistou três medalhas de ouro e uma prata. Em Lima, na hora da premiação, comemorou tanto que parecia que ela é que tinha ganhado o ouro, e não a americana Jaleen Roberts. Depois, a brasileira fez questão de abraçar todo mundo que torceu por ela. E olha que foi muita gente. Na hora da prova, atletas brasileiros de diversas modalidades se juntaram na torcida, incentivando Verônica desde o início e comemorando no fim.

“Eu não sei falar, eu só fico feliz. Eu nunca fiz algo pensado. A única coisa que faço pensado são minhas provas na faculdade. Eu sou o que sou. Fiquei tão feliz que quando terminei a prova, estava tudo muito confuso para mim, porque não esperava a prata. Eu só saí correndo forte. E a galera gritando, eu vi a felicidade neles. Todo mundo me olhando. Meu celular está pipocando ali. Isso é amor. Dê amor, acredite no amor que você recebe de volta. E não faça pensando em receber, faça por fazer”, aconselhou.

Fotos: Divulgação/Lima2019

A primeira cirurgia que Verônica precisou fazer foi aos 12 anos, para retirada de um tumor na cabeça. Aos 14, ela teve um AVC. Depois do AVC, ela teve hemiparesia e uma parte de seu corpo ficou paralisada. Foi então que conheceu o esporte paralímpico. Aos 19 anos, foi ao Parapan de Toronto 2015 e voltou com quatro medalhas - três de ouro e uma de prata. Na volta ao Brasil, precisou retirar grande parte do intestino grosso porque havia mais de 200 tumores nele. Aos 21, ela precisou fazer outra cirurgia na cabeça para retirar o mesmo tumor de quando era criança. E um ano depois depois teve que repetir a cirurgia, porque o tumor havia crescido novamente. 

Quando passou a se destacar no atletismo paralímpico, ainda muito jovem, Verônica começou a receber apoio do Programa Bolsa Atleta, da Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania. Hoje, ela está na categoria pódio, a mais alta do programa. Para ela, o apoio foi fundamental não apenas na carreira esportiva. "A Bolsa Atleta me ajudou num caso muito importante fora da pista também. Houve uma época que eu tive que pagar alguns exames, porque não tinha mais convênio e até o pagamento de convênio hoje eu consigo porque tenho o apoio do Bolsa Atleta. Se eu estou aqui hoje, sem tumor nenhum, e estou comprando meus remédios, estou conseguindo tomar minha suplementação, estou conseguindo me cuidar bem, é porque o Bolsa Atleta toda hora me ajuda, está comigo˜, disse Verônica. 

Quatro medalhas no Parapan de Toronto 2015, prata nos 100m e bronze nos 400m nos Jogos Paralímpicos Rio 2016, e agora prata nos Jogos Parapan-Americanos Lima 2019. Essa é Verônica Silva Hipólito. “Existem pessoas altas e baixas, gordas e magras, com mãos e sem mãos, com pernas e sem pernas, e isso não vai te definir. São tantas características que a gente pode ter. Eu não quero que me vejam como a menina dos 200 tumores. Não sou a menina que superou tantas cirurgias. Eu sou a Verônica Hipólito, filha da dona Josenilda, do seu José Dimas e irmã do Otávio, que não sabe cozinhar nada. Eu sou Verônica Hipólito, a menina que é uma das maiores medalhistas do atletismo e uma das mais novas. Eu sou a Verônica Silva Hipólito, que vai ser a menina mais rápida do mundo.”

 

Mateus Baeta, de Lima - rededoesporte.gov.br