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Covid-19

Voo fretado pelo governo federal traz nesta segunda (30.03) 159 brasileiros do Equador, entre eles nove nadadores paralímpicos

publicado: 29/03/2020 19h35, última modificação: 30/03/2020 16h41
Equipe do interior paulista com oito integrantes do Bolsa Atleta havia embarcado para treinamento em altitude no país sul-americano e ficou retida por restrições referentes à pandemia do coronavírus

Atualizada em 30.03, às 16h45

Um voo fretado programado para decolar do Aeroporto Internacional Mariscal Sucre, na região metropolitana de Quito, nesta segunda-feira (30.03), às 18h, vai encerrar um período de incertezas para 159 brasileiros. Eles ficaram retidos na capital equatoriana em função de restrições no espaço aéreo do país sul-americano decorrentes da crise provocada pela pandemia do Covid-19 (novo coronavírus). A previsão de chegada a São Paulo é às 2h10 do dia 31 de março. 

 

A operação é resultado de uma negociação direta do Ministério da Relações Exteriores do Brasil com a empresa aérea que vai prestar o serviço e a Embaixada Brasileira em Quito. No processo de discussão para equacionar a situação dentro do governo federal, foram envolvidos integrantes de várias pastas federais, como Ministério da Defesa, Casa Civil, Ministério do Turismo, Embratur, Anac e Ministério da Cidadania, este último via Secretaria Especial do Esporte.

 

Grupo brasileiro já no aeroporto esperando o retorno ao Brasil. Foto: Arquivo pessoal


Isso porque no grupo há vários atletas, incluindo dez integrantes de uma delegação de natação paralímpica nacional, nove atletas e um técnico. Quando eles embarcaram para o Equador, em 3 de março, o horizonte em mente era bem distante do atual. A equipe da cidade paulista de Indaiatuba buscava um período de treinamento na altitude de 2.560 metros de Cuenca.


O objetivo era lapidar o elenco para o Open Internacional de Natação, que seria realizado no Centro de Treinamento Paralímpico de São Paulo de 26 a 28 de março. A competição era uma das oportunidades para obtenção de índices para os Jogos Paralímpicos de Tóquio, no Japão.


O time de Indaiatuba conta com jovens talentos, como Victor Viana, e atletas de larga experiência internacional, casos de Raquel Viel, que atuou nos mundiais de 2009, 2015 e 2017 e disputou as duas últimas edições dos Jogos Paralímpicos, além de Cecília Araújo, da Classe S8, campeã mundial em 2017 nos 50m livre e medalhista de prata nos 100m costas. Oito dos nove atletas são ou já foram integrantes do Bolsa Atleta, programa da Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania.

A equipe de natação paralímpica em Quito

Alan Augusto da Silva Santos

André Luis Bento da Silva Filho 

Andrey Ribeiro Madeira  

Antonio Luiz Duarte Cândido - técnico 

Cecília Araújo - Campeã mundial nos 50m livre da categoria S8 e medalhista de prata nos 100m costa em 2017. Finalista nos Jogos Paralímpicos Rio 2016. Vice-campeã mundial em 2019. Integrante da Bolsa Pódio. 

Cecília Araújo com a medalha de ouro no Parapan de Lima, em 2019. Foto: Alexandre Schneider/CPB

Felipe Caltran - Disputou o Parapan em 2015 e 2019, além dos mundiais de 2015, 2017 e 2019. Integrante da Bolsa Atleta categoria paralímpica. 

Lucilene Sousa - Disputou os Jogos Parapan-Americanos e o Mundial de 2019. 

Raquel Viel - Esteve nos mundiais de 2015, 2017 e 2019. Disputou os Jogos Pan-Americanos em 2011 e 2015, e os Jogos Paralímpicos de 2012 e 2016. Integrante da Bolsa Pódio.

Tais Bobato - Bolsista da categoria nacional, disputou o Mundial da Federação Internacional do Esporte para Amputados e Cadeirantes em 2013. 

Victor Viana - Integrante da Bolsa Atleta na categoria Nacional.

 

De lá para cá, muita coisa mudou, no Brasil e no mundo. A competição no CT de São Paulo foi cancelada em função das restrições sociais impostas pela pandemia. Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio foram adiados. O espaço aéreo do Peru foi fechado para pousos e decolagens e o retorno dos brasileiros, originalmente marcado para 21 de março e que tinha escala em Lima, não pôde se concretizar.


"Foi tudo muito rápido. A gente teve a informação de que o espaço aéreo no Peru seria fechado para voos internacionais em 15 de março. Tentamos antecipar o voo, mas o valor por pessoa era alto. Não havia possibilidade. Nesse meio tempo, o Aeroporto de Cuenca, no Equador, que só faz voos locais, fechou também. Não tinha como a gente chegar a Quito. Com o auxílio do consulado brasileiro, fomos de van até a capital. Quase nove horas de estrada", narrou Antonio Luiz Duarte Cândido, técnico da equipe de natação.


Na capital equatoriana, o grupo passou a ter, além do suporte da diplomacia brasileira, auxílios do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e da prefeitura de Indaiatuba para hospedagem e alimentação. "O Equador trabalha com dólar e isso fez o custo aqui ficar alto. Tentamos ajuda de muitas pessoas", comentou o atleta Victor Viana, um dos integrantes da delegação, em vídeo que viralizou nas redes sociais.


"Conseguimos garantir a hospedagem deles num hotel. Temos mantido contato todos os dias na tentativa de dar tranquilidade a eles", afirmou o presidente do CPB, Mizael Conrado, que teve diálogos durante a semana com o secretário Especial do Esporte, Marcelo Magalhães. Para o dirigente, o governo federal foi proativo na situação. "Não é fácil. Tem as burocracias do Equador que precisam ser cumpridas. O Equador está com toque de recolher depois das 14h, uma situação de isolamento. É uma operação desafiadora e só temos a agradecer a todo o empenho federal para trazer todos de lá", completou.


Em seu perfil institucional no Twitter, o Ministério das Relações Exteriores publicou neste domingo que é a primeira vez que o Itamaraty freta aviões para repatriação de brasileiros retidos compulsoriamente no exterior. "Crise nova, soluções novas. O voo que trará os brasileiros levará equatorianos de volta para casa, em demonstração de ação internacional solidária", indicou a postagem. Ao todo, há ainda cerca de sete mil brasileiros a repatriar mundo afora. A prioridade federal tem sido pelos locais onde não há voos comerciais em operação, caso do Equador.


Segundo o técnico Antonio Luiz Duarte, apesar da frustração inerente ao fato de um investimento grande para um treinamento ter se perdido diante das circunstâncias, a equipe retorna fortalecida. "Todos voltarão mais fortes psicologicamente.  O efeito do treinamento de altitude não terá benefícios, uma vez que as Paralimpíadas serão só daqui a um ano. De qualquer forma, serviu para mostrar a eles o poder quando o grupo está unido. Estamos todos bem dentro do possível. Esperamos que todos os brasileiros que estão na mesma situação que nós possam regressar ao país para cumprir a quarentena em suas casas, com o conforto do lar", disse.

 

Serviço

 

O site da Embaixada do Brasil em Quito reúne todas as informações necessárias para os brasileiros interessados no voo que virá ao Brasil. Desde a documentação necessária até as opções de traslados gratuitos e os requisitos para despacho de bagagem. Em função do Toque de Recolher adotado no país, todos devem se apresentar no Parque La Carolina, ponto de encontro para o traslado, impreterivelmente até as 12h30. O portal do Ministério das Relações Exteriores também reúne uma série de informações e serviços para brasileiros que estejam fora do país e precisando de auxílio para retornar. 

 

Equipe que representaria o Brasil no Pan de Muaythai. Resgatados no Peru. Foto: Arquivo pessoal


Ação similar no Peru


O Ministério da Cidadania também se envolveu na operação que trouxe para casa um grupo de atletas do muaythai que, no Peru, a exemplo dos nadadores paralímpicos no Equador, sofreu as consequências da pandemia do COVID-19. O time formado pelos atletas Shaylana da Silva, João Pedro da Silva, Leila da Silva, Isaque Ramos, Douglas Gonçalves e pelo técnico Álvaro Gama deixou o Brasil em 12 de março para disputar, em Lima, o Pan-Americano de Muaythai, previsto para o período entre 16 e 22 de março.


No dia 14, os brasileiros foram informados do cancelamento do evento devido às restrições no país causadas pelo coronavírus. Esse, entretanto, foi o menor dos problemas, já que com fechamento das fronteiras aéreas, marítimas e terrestres no Peru, a equipe acabou sem ter como voltar ao Brasil.


“No dia 15, tivemos a informação de que seria fechado o espaço aéreo e que o país iria entrar em quarentena. Pediram para a gente ir ao aeroporto às pressas, mas já tinha tudo sido cancelado, o aeroporto estava fechado. Aí, a gente ficou em quarentena por alguns dias”, conta Álvaro Gama.


Diante das incertezas e com informações de que teriam que ficar mais duas semanas em Lima, o grupo divulgou um vídeo nas redes sociais no qual narrava o drama da equipe no Peru. A Confederação Brasileira de Muaythai Tradicional (CBMTT), então, acionou a Secretaria Especial do Esporte. O secretário Marcelo Magalhães levou o caso ao conhecimento do ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni, e teve início uma série de contatos que envolveram o Ministério das Relações Exteriores e a Embaixada do Brasil no Peru com o governo peruano para que a situação pudesse ser resolvida.


“Depois que a Secretaria Especial do Esporte e os órgãos competentes entraram em contato com eles (da embaixada) a situação ficou mais fácil. As pessoas entraram em contato com a gente e nós ficamos mais tranquilos. Apesar de não sabermos o dia em que nós iríamos voltar, estávamos nessa prioridade e eles estavam atentos à gente”, conta Álvaro. A equipe conseguiu voltar ao Brasil no dia 20 de março.

Gustavo Cunha e Luiz Roberto Magalhães - Ascom – Ministério da Cidadania